A Raia é a fronteira entre Portugal e Espanha, mas é muito mais, é História e histórias, é gente e costumes herdados de gerações, é de uma beleza natural extraordinária.
Longe das grandes cidades ficou um património intocado, vestígios de povoados pré-históricos e dos seus monumentos em pedra, fortificações e templos dos vários povos que conquistaram e defenderam estas terras a que chamaram suas, Celtas, Iberos, Romanos, Germânicos, Islâmicos, Castelhanos e agora Portugueses.
Da mistura de todos os que por aqui ficaram resulta uma identidade cultural única que é mantida pelo povo da Raia, nos seus costumes e tradições, no seu artesanato e gastronomia, na arquitectura e no falar, mas principalmente na sua relação com a terra.
Para as gentes da Raia a família, os vizinhos e a terra são o mais importante. Os ritmos são os do campo, das estações, do semear e do colher. Todos têm a sua horta e os seus animais, sempre dispostos a ajudar, a dar uma couve, umas laranjas ou um dedo de conversa.
O objectivo deste Blog é a divulgação da Raia alentejana, é trazer pessoas para estas paragens, venha visitar-nos e se quiser…… fique.



The Raia is the borderlands between Portugal and Spain and much more, it is History and stories, it is people and customs inherited from generations, it is of extraordinary natural beauty.
Away from the big cities we have an untouched heritage, remains of prehistoric settlements and their stone monuments, fortifications and temples of the various peoples who conquered and defended this land they called home, Celts, Iberians, Romans, Germans, Islamic, Castilian and now Portuguese.
The mixture of all those who settled here results in a unique cultural identity that is retained by the people of the Raia, in their customs and traditions, handicrafts and gastronomy, architecture and language, but mainly in their relation to the land.
To the people of the Raia the family, the neighbors and the land are more important. The rhythms are those of the countryside, the seasons, the time to plant or harvest. All have their gardens and animals, always willing to help, to give a cabbage, a few oranges or a bit of conversation.
This Blogs purpose is sharing the Alentejo Raia, to bring people to this region, come and visit us and if you want ... stay.



+351 965670853
faria100@gmail.com
Eunice Gomes
Luis Lobato de Faria


Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

Festas de Santa Cruz- Santa Cruz festivities



As Festas de Santa Cruz realizam-se nas Aldeias da Venda e Cabeça de Carneiro, sendo o Cântico à Ordem das Oliveiras a parte mais importante das festividades. Este ritual divide-se por dois dias, no primeiro leva-se, em procissão, a cruz para a casa onde vai passar a noite, no segundo leva-se a cruz para a casa onde ficará até ao ano seguinte. Nestas procissões as moças transportam a cruz, decorada com ouro, rodeadas pelos moços armados de caçadeiras, enquanto as raparigas cantam os rapazes disparam para o alto. As caçadeiras outrora estariam carregadas e  serviriam para guardar o ouro durante a noite.  

The Holy Cross Festivities are held in Venda and Cabeça de Carneiro Villages, the Chant to the Olive Tree Order is the main event. This ritual is divided in two days, in the first day, in procession, the cross is taken to the house where stays for the night, in the second day the cross is taken to the house where it will remain until the following year. In these processions the girls carry the cross, decorated with gold, surrounded by boys armed with shotguns, while the girls sing the boys shoot to the air. Once the shotguns were loaded  and they helped keeping the gold safe during the night.

Aldeia da Venda no Álbum de Fotos do Facebook - Facebook Photo Album:

Aldeia da Cabeça de Carneiro do Blog Fotos do Fim de Semana:




Terça-feira, 22 de Maio de 2012

Almece ou Atabefe


O almece ou atabefe é o soro de leite de ovelha coalhado e sem sal, no Alentejo come-se com pão migado.

The almece atabefe is sheep's curd milk serum without salt, in Alentejo is eaten mixed with bread.




Marcas de Canteiro - Stonemason Seals



A marca de canteiro é um símbolo gravado pelo canteiro numa pedra por si talhada, permitindo assim contabilizar o seu  trabalho de maneira a receber o valor que lhe é devido.  

The stonemason seal is a symbol carved in the stone by the stonemason, thus accounting for his work in order to receive the due amount.

Álbum de fotos no Facebook - Facebook photo album
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.359114557480556.81220.231228173602529&type=3


Ermida de Santa Catarina - Santa Catarina Hermitage



Entre Monsaraz e o Alqueva temos a acastelada Ermida de Santa Catarina, provavelmente uma obra dos Templários, construida no século XIII este local de oração protegia viajantes e peregrinos.

Between Monsaraz and Alqueva we have the castellated Santa Catarina Hermitage, probably a Templar work, built in the thirteenth century this place of prayer protected travelers and pilgrims.

Domingo, 15 de Abril de 2012

Forno para produção de carvão - Furnace to produce charcoal



Forno para produção de carvão vegetal, construído em tijolo e coberto com terra, a lenha de sobreiro ou azinheira é colocada no seu interior.

Furnace to produce charcoal, built in brick and covered with soil, the oak wood is placed inside.

Álbum de fotos no Facebook - Facebook photo album
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Quinta-feira, 12 de Abril de 2012

Pedra Alçada ou Pedra do Galo



Menir  ou afloramento natural com 10m de altura e 6 de diâmetro composto por dois blocos sobrepostos.

Menhir or natural outcrop with 10m height and 6m diameter, consists in two overlapping blocks.

Texto de Ana Paula Fitas no Blog Al Tejo:
http://alandroal.blogspot.pt/2011/09/colaboracao-dr-ana-paula-fitas.html

"...Deste modo, em termos de análise inspirada na teoria do centro e periferias, constatei que o megalito da Pedra Alçada (conhecida localmente por Pedra do Galo alegadamente por ter sido colocado sobre ela um catavento de ferro com a forma de um galo) ocupa o centro geográfico da freguesia a partir do qual é fácil optar por caminhos identificáveis por Pedras cuja função seria, no âmbito da cultura oral local, a de funcionarem como marcas espaciais de identificação das acessibilidades aos concelhos de Redondo (Pedra de St. Aleixo) e de Reguengos de Monsaraz (Pedra Alçada); entre elas, a designada Pedra do Cavalo permitiria o acesso intermédio à freguesia de Montoito onde os dois concelhos confluem enquanto, no extremo da freguesia de Santiago Maior que confina com a de Montejuntos na, agora deserta, Aldeia do Seixo (entre a Aldeia da Venda e a de Cabeça de Carneiro), o caminho era aberto até à aldeia de Outeiro onde se situa um dos grandes menhires do concelho de Reguengos de Monsaraz, designado Menhir do Outeiro...."
 


Rota da Pedra Alçada, álbum de fotos com legenda na nossa página do facebook :



Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

História de Juromenha por Carlos Eduardo da Cruz Luna

HISTÓRIA DE UMA ANTIGA VILA, HOJE INTEGRADA NO CONCELHO DO ALANDROAL
UMA ANTIGA VILA DE FRONTEIRA : JUROMENHA

1) Introdução
A história pode ser madrasta, mesmo no vale do Guadiana. O rio e seus afluentes convidam o Homem a instalar-se nas suas margens, ou próximo delas. Com bons resultados, quase sempre. Mas... acontecimentos diversos podem influir no desenvolvimento normal e no progresso dos aglomerados humanos.

2) Juromenha (até ao século XVI)
A fortaleza abandonada de Juromenha, sobre o Guadiana, 18 km a nordeste do Alandroal, 16 km a sudoeste de Elvas, 17 km a leste de Vila Viçosa, e 11 km a noroeste de Olivença, impressiona pela sua dignidade fantasmagórica.
A sua origem perde-se na noite dos tempos. Sem provas, quer-se que tenha sido fundada por galo-celtas, por volta de 400 a.C. Embora existam vestígios romanos, é muito improvável que tenha sido fundada por Júlio César em 50 a.C., com o nome de “Julii Moenia” (Muralhas de Júlio). Outra lenda dá-a como fundada pelos visigodos, onde estaria a origem do seu nome, numa princesa de nome Menha  a quem um irmão queria arrancar um juramento indecoroso (- Jura, Menha, que não!). Tal lenda não é digna de crédito, independentemente da sua beleza, pois surge muito depois da fixação do topónimo.
Nos tempos muçulmanos, foi uma cidade importante, cujo nome seria, segundo alguns, “Chel-Mena”. Mas o topónimo árabe mais provável terá sido o de “Yulumaniya” ou “Julumaniya”, uma, repete-se, cidade moura importante, e nele se deverá ver a origem mais provável do termo JUROMENHA, que conheceu algumas variantes, como Jeremenha, Gerumenha, ou Jorumenha.
Não se pode pôr de lado a hipótese de a forma árabe Yulumaniya derivar de “Julli Moenia” (Muralhas de Júlio)...  se acaso tal lenda (a da origem romana) já existia no século VIII !
D. Afonso Henriques terá conquistado a povoação em 1167. D. Gonçalo Viegas, filho ou sobrinho de D. Egas Moniz, talvez já no tempo de D. Sancho I, tê-la-á  recebido em doação, atravessando então o Guadiana e ocupando o lugar de Vila Real, embora pouco se saiba sobre a veracidade destes factos. Os muçulmanos reocuparam a região, decerto entre 1169 e 1189, já que a data de 1242 referida em algumas enciclopédias como de “conquista moura”, estará decerto errada, pois sabe-se com  razoável certeza ter o fidalgo D. Paio Peres Correia ocupado definitivamente a região por volta de 1220, 1230 o mais tardar. Em 1242, já os mouros estavam muito, muito longe.
Após a pacificação da fronteira em 1297 (Tratado de Alcañices), D. Dinis mandou reedificar as muralhas e o castelo de Juromenha, dando-lhe foral em 1312. As suas terra ficaram dentro da área atribuída à Ordem de Avis.
Sem dúvida que no século XIV teve assinalável importância, nela se efectuando três casamentos reais: o de D. Afonso IV com D. Beatriz de Castela, ainda no século XIII e a rematar o já citado Tratado de Alcañices; o de D. Maria de Portugal com Afonso XI de Castela em, 1328; e o de D. Pedro I com D. Constança de Castela em 1340.
Durante a crise de 1383-1385, Juromenha não parece ter desempenhado nenhum papel de realce, pois raramente é referida, o mesmo ocorrendo no século XV. Podemos, todavia, estar a ser enganados por eventual destruição de documentos. De qualquer forma, não deverá ter perdido importância, pois D. Manuel I concedeu-lhe, em Lisboa, novo Foral, em 15 de Setembro de 1512. As muralhas, por essa época, eram grandiosas, com 17 torres, sendo uma delas uma Torre de Menagem com 140 palmos (cerca de 30,8 metros) de altura.
No Numeramento de 1527-1573, o mais antigo de Portugal, Juromenha surge como tendo 150 fogos (pouco mais de 600 habitantes, ao que se julga), portanto bastante menos que as vizinhas Elvas  (1916 fogos, cerca de 7000 habitantes), Alandroal (284 fogos, cerca de 1100 habitantes), Olivença (1053 fogos, cerca de 4000 habitantes), Vila Viçosa (talvez 800 fogos e cerca de 3000 habitantes), Estremoz (969 fogos, aproximadamente  3200 habitantes) e Borba (600 fogos, cerca de 2300 habitantes). Igualava, todavia, Terena (170 fogos, talvez 650 habitantes).
A importância de Juromenha era essencialmente militar e estratégica, protegendo, à retaguarda, Olivença, uma urbe alentejana que, cercada por Castela/Espanha por três lados, constituía sempre um quebra-cabeças para as chefias militares portuguesas. As terras do Concelho ultrapassavam aliás o Guadiana, pois pertencia-lhe o lugar de Vila real, exactamente a sua melhor área agrícola.

3) Juromenha  (1640-1801)
O período das Guerras de Restauração aumentou o papel de Juromenha, e D. João IV ampliou-lhe e modernizou-lhe as fortificações, que passaram a ser em estilo “Vauban”. Em 1657, recebe milhares de oliventinos fugidos da sua vila, então ocupada pelo inimigo, à qual só regressaram em 1668, quando a administração portuguesa foi reinstaurada.
Juromenha resistiu sempre durante a Guerra de 1640-1668, registando-se nela um triste evento em 19 de Janeiro de 1659, quando explodiu por descuido um armazém de pólvora, perecendo então toda a guarda ali aquartelada, composta por estudantes de Évora capitaneados pelo Padre Francisco Soares (conhecido por “o Lusitano”).
Em 1709 (Guerra de Sucessão de Espanha) travaram-se combates nas proximidades, e ainda ao longo de todo o século XVIII a Praça de Juromenha foi alvo de constantes cuidados.
É evidente que, em todas estas guerras, toda a zona fronteiriça (raiana), tanto do lado português como espanhol, sofreu consideráveis destruições. O desenvolvimento é, necessariamente, inimigo da guerra.
O conflito seguinte, no início do século XIX, irá, uma vez mais, demonstrá-lo.

4) 1801, Data Incontornável
A Guerra das Laranjas levou à conquista da Vila de Juromenha em 20 de Maio de 1801. Alguns meses depois, foi devolvida pelos espanhóis, mas sem a parte do Concelho a leste do Guadiana, com a aldeia de Vila  Real, aliás a mais rica em termos agrícolas desde sempre.
Ainda em 1837 Juromelha era considerada uma fortaleza de Primeira Classe, com uma forte guarnição militar, mas o declínio acelerou-se a partir de então. A meio do século XIX, deixava mesmo de ser sede de Concelhos, passando a depender do Alandroal.
Os delicados problemas ligados à inexistência oficial de fronteira na região, resultantes da questão em aberto de Olivença, fizeram-se sentir duramente. Durante algum tempo, alguns oliventinos procuravam escolarizar-se em Juromenha, mas em breve a vigilância espanhola, em especial na época franquista, tornou tal quase impossível.

5) Os limites do concelho de Juromenha e a Ponte da Ajuda
Mas, afinal, quais eram os limites do extinto Concelho de Juromenha a leste do   Guadiana ?
Um trabalho recente, de autoria de Mário Rui Simões Rodrigues, de Leiria, baseado em vários documentos, nomeadamente um mapa de 29 – Janeiro – 1802, existente no “Servicio Historico Militar” em Madrid, procura demonstrar que, muito provável e inesperadamente, a Ponte da Ajuda, que ligava Elvas a Olivença, deveria, para lá do Guadiana, assentar em terras do termo de Juromenha. As investigaçõs do oliventino Miguel Ángel Vallecillo Teodoro, ao demonstrar, no seu livro “Olivença en su Historia”, que as herdades de Malpica de Portugal e Joana Castanha, cujo limite norte era a fronteira da Ribeira de Olivença, pertenciam a Vila Real, freguesia do concelho de Juromenha, reforçam esta conclusão.
Sabe-se que a Ponte da Ajuda, construída no reinado de D. Manuel por volta de 1520, se destinava a pôr em contacto as 6ª (Elvas) e 13ª (Olivença) maiores povoações portuguesas. Com os seus 450 metros, 18 arcos, e quase 6 metros de largura, esta ponte, parcialmente destruída em 1709, durante a Guerra da Sucessão de Espanha, é, ainda hoje, uma obra impressionante. Inevitavelmente, a polémica Luso-espanhola sobre as terras de Olivença tem-se reflectido no adiamento constante da sua recuperação. As dificuldades e as contradições diplomáticas não cessam. Note-se que, desde 1967, a Ponte foi declarada Monumento de interesse Nacional pelo Estado Português.
No que respeita ainda a limites, Portugal não cessou de reclamar contra a ocupação de parte do concelho de Juromenha, em 1801, pela Espanha, contrária ao Tratado de Badajoz, independentemente de Portugal considerar este anulado desde 1807.
Com efeito, no Tratado de 1801 fala-se em colocar os limites fronteiriços no Guadiana, mas “... naquela parte que UNICAMENTE toca ao sobredito território de Olivença.” (Artigo III)
Vila Real, a aldeia que, segundo a lenda, foi fundada por Gonçalo Viegas, que quis recordar Vila real de Trás-os-Montes (sendo mais provável que o nome se deva a existirem ali terras da Coroa Portuguesa), bem como toda a área que lhe pertencia a oriente do Guadiana, foi pois anexada em violação do Tratado de Badajoz.

6) Juromenha : declínio, um triste destino
Juromenha não se limitava a sofrer pela amputação de parte do seu território. As desgraças sucediam-se. Epidemias de febres (“sezões”) afugentavam a população. No princípio do século XX, um surto de peste bubónica afugentou as poucas gentes que tinham ficado. Mais tarde, surgiu um povoado novo, fora das muralhas, e as ruínas de Juromenha passaram a ser utilizadas como palheiros e currais. Distinguem-se, ainda, a antiga Câmara e a Casa do Senado, bem como as capelas da Misericórdia e de  São Francisco de Assis. Da antiga cadeia, quase só resta um colorido brasão. Por vezes, e cada vez mais, distinguir estes antigos edifícios exige um grande esforço de imaginação.
Durante a Guerra Civil de Espanha (1936-1939), por ali passaram alguns refugiados, que as autoridades portuguesas procuravam deter para, conscientemente, os entregarem à desumana repressão franquista.
A população da nova Juromenha extra-muros tem vindo a diminuir desde o meio do século XX, com alguns movimentos ocasionais  insuficientes para contrariar a tendência: 1399 habitantes em 1950, 1453 em 1960, 929 habitantes em 1970. e, em 1991...   181 habitantes apenas !
A situação de fronteira administrativa, mas não legal, no Guadiana, não lhe permitiu ter uma verdadeira alfândega, embora funcionasse às vezes um muito pequeno posto de estatuto indefinido. A sua Feira Anual, em 10 de Agosto, sob o seu antigo Orago de Nossa Senhora do Loreto, é muito modesta.
Juromenha é, fundamentalmente, uma ruína grandiosa. Um certo medo do local e das suas antigas epidemias subsistiu até 1940, já que num guia com essa data se aconselhava a eventuais visitantes o cuidado de se preveniram com quinino.
A falta de água é um dos dramas do povoado, e é um problema muito antigo. E, todavia, era relativamente rica de trigo em volta, em especial além-Guadiana, e de madeira de queima, pelo que há memória de um ditado popular significativo (“Juromenha, Juromenha, // boa de trigo, e melhor de lenha”).
Para visitar a fortaleza de Juromenha, segundo informações de 1996, tem de se pedir a chave no novo povoado de Juromenha fora das muralhas.
E o visitante logo concluirá que a actual situação de abandono não pode continuar. A fortaleza está ainda razoavelmente bem conservada, fazendo jus ao antigo brasão da Vila (uma torre de muralha, dentro de água, encimada por correntes), mas as ruínas do interior em breve não passarão de uma camada de pó. Urge, pois, salvar os maltratados monumentos,      reconstruí-los, restaurar tanto quanto possível o traçado urbano, e fazer da fortaleza fantasma um lugar de vida, talvez um ponto turístico, quiçá uma pousada, e outras atracções. Há notícias de que se começa a pensar em qualquer coisa. Qualquer solução será benvinda, mas o abandono actual não pode ter perdão.
O que poderá fazer para acudir a esta região, progressivamente abandonada, onde as pedras carregadas de história têm cada vez menos homens por companhia ? Fica a interrogação para quem de direito responder.

Estremoz, revisto em  08 de Janeiro de 2006
Carlos Eduardo da Cruz Luna

Domingo, 25 de Março de 2012

Fortificações abaluartadas de Campo Maior - Bulwark fortifications of Campo Maior


Mapa do século XVIII, cedido por Manuel Martins no Grupo do Facebook: Fortificaciones abaluartadas de la Raya a Patrimonio Mundial


Sobreposição de Mapa de 1797 com planta actual de Campo Maior por Chema Períánez no Grupo do Facebook: Fortificaciones abaluartadas de la Raya a Patrimonio Mundial

Domingo, 19 de Fevereiro de 2012

Raianos nos Lusíadas


Canto VIII

33

«Na mesma guerra vê que presas ganha
Estoutro Capitão de pouca gente;
Comendadores vence e o gado apanha
Que levavam roubado ousadamente;
Outra vez vê que a lança em sangue banha
Destes, só por livrar, co amor ardente,
O preso amigo, preso por leal:
Pero Rodrigues é do Landroal.

34

«Olha este desleal e como paga
O perjúrio que fez e vil engano;
Gil Fernandes é de Elvas quem o estraga
E faz vir a passar o último dano:
De Xerez rouba o campo e quási alaga
Co sangue de seus donos Castelhano.
Mas olha Rui Pereira, que co rosto
Faz escudo às galés, diante posto.


 

Castelo de Noudar - Noudar Castle

http://pt.scribd.com/doc/82093436/Duarte-Gil-Nunes-Noudar-em-finais-da-Idade-Media-comenda-e-couto-de-homiziados


http://pt.scribd.com/doc/82093674/HUGO-MIGUEL-PINTO-CALADO-A-RAIA-ALENTEJANA-MEDIEVAL-E-OS-POLOS-DE-DEFESA-MILITAR-O-CASTELO-DE-NOUDAR-E-A-DEFESA-DO-PATRIMONIO-NACIONAL


http://historiasdaraia.blogspot.com/2008/11/fortalezas-da-raia-noudar.html

Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Cromeleque do Xarez - Xarez Cromlech



O Cromeleque do Xarez data do 4ºmilénio a.C., é constituido por 55 menires de diferentes formas dispostos num quadrado em torno de um menir central de forma fálica. Este Cromeleque encontrava-se muito danificado por trabalhos agricolas quando foi reerguido na Herdade do Xerês de Baixo. Com a construção da Barragem do Alqueva teve que ser movido para a actual localização ao lado do Convento da Orada. 

The Xarez Cromlech dates from the 4th millennium BC, consists of 55 standing stones of different shapes arranged in a square around a central phallic menhir. This Cromlech was very damaged by agricultural work when it was rebuilt in the Herdade do Xerêz de Baixo. With the construction of the Alqueva Dam it had to be moved to the current location near Orada Convent.



HISTÓRIA DE OUGUELA por Carlos Eduardo da Cruz Luna

-História e declínio de um Concelho-

Quem hoje se afasta de Campo Maior para norte, ou nordeste, encontra, a cerca de 10 quilómetros, uma povoação, Ouguela, de pouco mais de 60 habitantes. Um castelo de grandes dimensões, e que desde logo nos surpreende, domina a paisagem.
Trata-se de mais um caso de uma povoação que já teve alguma grandeza, e que conheceu um grande declínio, um pouco como sucedeu com Juromenha, e, em menor escala, com Terena, para já não falar de outras.
Algumas fontes antigas dizem que ali, existiu uma povoação romana chamada “Budua”, e que nos tempos visigodos, e até talvez árabes, se chamava Niguella. Não se sabe se há fundamentos para tais afirmações ou se estamos perante lendas.
Por volta de 1220 ou 1230, a região de Ouguela, bem como Campo maior, foi conquistada por leoneses. As duas localidades tornaram-se aldeias de Castela-Leão, com algumas situações de conflito sem grande importância, até que, em 1297, pelo tratado de Alcañices, passaram para Portugal, tal como, na região, Olivença (e Táliga). Ouguela (assim se passou a chamar) recebeu foral do mesmo tipo do de Évora, logo em 1298. Todavia, com Campo Maior e Olivença, dependeu do bispado de Badajoz até 1415. O castelo foi mandado reconstruir em 1300 (o que indica que já existia algo de fortificações no local, a não ser que se trate dum erro). Outras fontes indicam 1310, o que parece ser menos provável.
A importância de Ouguela, estava na sua posição estratégica, já que defendia um dos caminhos de entrada em Portugal, primeiramente conta Leão e Castela, depois contra a sua sucedânea Espanha.
Ouguela quase não é citada na crise de 1383-85, presumindo-se que terá sido anulada por Campo Maior, que se colocou do lado de Castela. Portanto, só terá regressado à coroa portuguesa entre 1348 e 1390. É muito possível que se tenham desenrolado combates na região, e que a população tenha sofrido com isso.
O seu castelo é várias vezes reforçado nos séculos XIV e XV, o que significa que mantinha a sua importância estratégica.
Em 1475, segundo a lenda e alguns documentos, ter-se-á travado um estranho combate singular entre João da Silva, alcaide-mor de Ouguela, e João Fernandes Galindo (Juan Fernández Galindo), alcaide-mor de Albuquerque (Espanha). Parece que um contigente castelhanho penetrara na vila. Ambos morreram dos ferimentos sofridos, tendo em 1551 Diogo da Silva, neto do alcaide-mor então falecido, a caminho do Concílio de Trento, mandado colocar no local de combate uma cruz comemorativa, hoje no museu de Elvas (Cruz de Galindo). Não se sabe o que haverá de fantasioso em tal episódio.
Em 1de Junho de 1512, Ouguela recebeu uma nova carta de foral (reinado de D. Manuel).
Claro que Ouguela, ou melhor, as suas gentes, terão participado na gesta dos descobrimentos iniciada no século XV, e terão vivido a decadência portuguesa da segunda metade do século XVI e do século XVII.
Em 1527, o numeramento (censo) de Portugal dava a Ouguela 144 fogos (cerca de 600 a 650 habitantes), ao lado de Campo Maior (cerca de 2900 habitantes), Alegrete (cerce de 1000 habitantes), Arronches (cerca de 3300 habitantes), Elvas (8900 habitantes), Olivença (4900 habitantes), Juromenha (600 habitantes), Terena (600 habitantes também), Vila Viçosa (3000 habitantes), Borba (3800 habitantes), Estremoz (4500 habitantes), Marvão (1700  habitantes), Monforte ( 2500 habitantes).
A guerra da restauração (1640-1668) levou novas agruras para a sua população. Datam dessa Época alguns troços de muralha com os primeiros trabalhos em 1647, mas que se estenderam pelo século XVIII.
Logo em 1642, Ouguela fora atacada, mas o exército espanhol não levara a melhor, conseguindo a vila resistir vitoriosamente. Um episódio semelhante ocorreu em 1644, mas aí os combates foram bem mais ferozes. A população resistiu com bravura, tendo várias lendas nascido na época.    
Na memória popular ficou uma mulher, Isabel Pereira, que, segundo rezam  documentos da época, se mostrou dotada de grande valentia, “quer pelejando nas trincheiras, [quer] repartindo pólvora e balas aos soldados; e retirada ao castelo ficou desacordada por algum espaço com a ferida que lhe deram, até que, tornando a si, e vendo que não era perigosa, prosseguiu a pelejar com maiores brios até ó fim”.
Em 1662, todavia, Ouguela rendeu-se sem resistência ao exército espanhol de D. João de Áustria. O capitão Domingos de Ataíde Mascarenhas, que deu a ordem de capitulação, foi depois severamente punido.
A paz de 1668 permitiu às terras raianas recomeçar a sarar as feridas, tanto do lado português como espanhol. Mas… novos conflitos se sucederam. Assim, em 1709 houve novas destruições em torno da vila, e em 1762 um rigoroso cerco, durante o qual o capitão Brás de Carvalho conseguiu resistir heroicamente.
Na obra “Corografia Portuguesa”, de 1708, de António Carvalho da Costa, tomo IF, duas páginas são dedicadas à vila de Ouguela; diz-se que a povoação tem mais de 700 habitantes, que o seu orago é Nossa Senhora da Graça, que tem casa da misericórdia na ermida do Espírito Santo. Mais, fala-se em ruínas antigas junto a uma ermida, são Salvador, a quatro quilómetros da vila, citada como tendo sido “Casa dos Templários”.
Diz-se ainda que Ouguela “é (…) abundante de pão, vinho, e gados, e [que] tem uma fonte com duas propriedades notáveis: uma, que toda a cousa viva, que se lhe lança dentro, morre logo, excepto rãs; e outra, que de maneira nenhuma coze carnes, nem legumes”. Mais, diz-se que a vila “tem dois juízes ordinários, vereadores, um procurador do concelho, um escrivão da câmara, um juiz órfãos com o seu escrivão, outro do judicial, e notas, e uma companhia  de ordenança”. D. Pedro da Cunha, senhor de Tábua, é apontado como senhor de Ouguela.
A obra refere a lenda da igreja de Nossa senhora da Enxara, no caminho de Albuquerque, semelhante a tantas outras, nas quais uma divindade, ou uma estátua da mesma, indica o lugar onde se lhe deverá erguer um templo. Neste caso, é uma garota, e depois a sua mãe, que são escolhidas pela divindade. Descreve-se a imagem da Santa e opina-se que poderá ter origem visigótica. Refere-se que há muita devoção à mesma, e que pessoas de Campo Maior, e até de Castela, lhe pedem protecção, e visitam a Igreja.
É significativo, talvez, que não se refira a “lenda do tamborzinho”. Com as devidas reservas, tal poderá significar que esta, tão difundida em Ouguela, terá tido origem num facto ocorrido em 1709 ou em 1762. Dificilmente poderá ter tido lugar mais tarde.
A lenda diz que estando Ouguela cercada durante uma guerra (não se indica qual), e não sendo possível pedir socorro a Campo Maior, uma criança terá descido pela figueira que ainda hoje se vê junto á muralha, transportando uma bandeira e uma mensagem escrita, e talvez um tamborzinho com que costumava brincar. Não tendo levantado suspeitas no campo espanhol, ultrapassou as linhas inimigas e chegou a Campo Maior, entregando a mensagem no hospital. Diz-se que Ouguela terá tido um brazão inspirado nesta lenda, mas nada consta em documentos. Afinal, esta lenda reflecte a vivência de posto militar raiano das gentes de Ouguela.
Tudo isto terá influído no sentido de, em 1800, haver em Ouguela só 24 vizinhos “dentro” da vila e 20 fora (cerca de 200 habitantes, talvez). Em 1801, durante a Guerra das Laranjas, após a conquista de Olivença e Juromenha, Campo Maior rendeu-se ao exército espanhol, mas só depois de violento cerco e de muita resistência (15 de Junho). Ouguela não foi atacada, mas caída Campo Maior era um espinho nas costas do inimigo. 460 espanhóis, simulando um maior número pela disposição no terreno, aproximaram-se do castelo. O governador, Jóse Joaquim Queirós, acabou por entregar Ouguela ao atacante, já que não havia qualquer possibilidade de resistência (esta descrição encontra-se no Livro “A Guerra das Laranjas/A perda de Olivença”, de António Ventura, 2004, Ed. Prefácio).
Até 1811, decerto houve alguns conflitos em terras em redor de Ouguela, mas de pouca monta, pois quase nada chegou até nós. Os vários conflitos do início do século XIX pouco rasto deixaram na região.
A novidade seguinte, pouco alegre para a vila, é que em 1836 se extinguiu o concelho, sendo unido a Campo Maior. A decadência, que já vinha do século XVIII, reflectia-se a nível administrativo. E algo pior sucedeu, quando Ouguela deixou de ser freguesia e foi anexada a São João Baptista (Campo Maior) (1941).
É um pouco triste seguir esta história. Uma povoação nasceu e cresceu, teve momentos de alguma grandeza e de glória… e iniciou um processo de decadência.
Algumas quadras populares falam de Ouguela. Uma refere-se à sua grandeza:
                 Bela cidade de Ouguela
                 Dá vistas à lapagueira
                 Mal empregada cidade
                 Estar em tão alta ladeira
A lapagueira será um acidente geográfico.
Outra ironiza com a sua decadência, e, com algum sentido de  humor, reza assim:
                 Adeus vila de Ouguela
                 Que não há vila mais nobre
                 Para teres vinte ruas
                 Faltam-te só dezanove
Assim é a roda da história. Olhando as velhas muralhas, a que não falta ainda opulência, sentimos-nos comovidos. Uma inscrição em latim, num dos arcos, informa-nos de uma divisa dos seus antigos defensores e moradores. “pro patria, pro rege et pro fide, aut vincere, aut mori” (pela pátria, pelo rei, e pela fé, vencer ou morrer).
O tempo é (mesmo) implacável.
Há, todavia, que pensar no futuro. Ouguela, hoje com apenas cerca de 60 habitantes, terá de procurar reerguer-se. O seu castelo, que já foi palco de filmagens de séries de televisão, tem uma beleza indesmentível. Há que ser-se imaginativo e ter força de vontade, e aproveitar tão vetusto monumento. Agora já não, porque felizmente tal não é necessário, como lugar de defesa, mas quiçá, como lugar de encontro, entre as raias alentejana e extremenha.
Que esta singela história da antiga vila, hoje “lugar”, de Ouguela, abra caminho nesse sentido, seja um primeiro passo, eis o meu sincero desejo.

Estremoz, 2 de Novembro de 2005
Carlos Eduardo da Cruz Luna